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30.8.06
Spinoza - 25/11/1980
As traduções foram finalmente retomadas. Acaba de ser publicada a aula sobre Spinoza (25/11/1980). A tradução desta bela aula não suscitou maiores dificuldades. A única digna de nota é uma pequena inconsistência conceitual no texto original: "L'Un fait être, donc il n'est pas, il est supérieur à l'être. Ça, ce sera le langage de la pure émanation: l'Un émane de l'Être. C'est à dire que l'Un ne sort pas de soi pour produire l'Être, parce qu'il sortait de soi il deviendrait Deux, mais l'Être sort de l'Un." A frase grifada diz, literalmente, "O Um emana do Ser", quando deveria ser precisamente o contrário: "O Ser emana do Um". Essa inconsistência não escapou ao tradutor para o inglês, que registrou "the One emanates Being" (O Um emana o Ser), nem ao tradutor para o italiano, que entretanto preferiu não se comprometer e simplesmente assinalou a inconsistência com um "sic": "l'Uno emana dall'Essere [sic]". Desse modo, em português a passagem ficou assim: "O Um faz Ser, portanto ele não é, ele é superior ao Ser. Essa será a linguagem da pura emanação: do Um emana o Ser. Ou seja, o Um não sai de si para produzir o Ser, pois se ele saísse de si ele se tornaria Dois; mas o Ser sai do Um." 22.4.04
Nota sobre a tradução da aula de 24/01/1978
Existem duas fontes distintas da aula de 24/01/1978 sobre Spinoza: a versão online, apresentada em HTML para leitura na tela, e a versão em RTF, para download. Note-se em primeiro lugar que a versão RTF contém um trecho final que está ausente na versão online. Fora isso, as diferenças entre essas duas fontes não são muito grandes, mas são consideráveis. Por exemplo, na versão online se lê (os itálicos são meus): Lorsque je disais, dans ma première différence idée-affect, que l'idée c'est le mode de pensée qui représente rien, l'affect c'est le mode de pensée qui ne représente rien, je dirais en termes techniques que ce n'était qu'une simple définition nominale, ou, si vous préférez, extérieure, extrinsèque. Nessa passagem, é nítido que Deleuze se equivoca ("l'idée") e imediatamente se corrige ("l'affect"). Portanto, não há nenhuma necessidade de transcrever a primeira oração; ao contrário, em função da clareza do texto, o melhor a fazer é suprimi-la. Foi o que decidi fazer: Quando eu dizia, na minha primeira distinção idéia-afeto, que o afeto é o modo de pensamento que não representa nada, eu diria em termos técnicos que se tratava de uma simples definição nominal, ou, se preferirem, exterior, extrínseca. Note-se que a oração suprimida foi colocada entre parênteses nas traduções para o espanhol e para o inglês, e foi mesmo assinalada com um ponto de interrogação [?] na versão inglesa, indícios de que minha solução estava longe de ser absurda. Assim, não foi exatamente com surpresa que verifiquei que na segunda versão do texto - posterior às traduções mencionadas - essa mesma oração também havia sido suprimida: Lorsque je disais, dans ma première différence idée-affect, que l'affect c'est le mode de pensée qui ne représente rien, je dirais en termes techniques que ce n'était qu'une simple définition nominale, ou, si vous préférez, extérieure, extrinsèque. Essa passagem não apenas autoriza minha tradução, mas, o que é ainda mais importante, confirma que a segunda versão do texto passou por uma (proveitosa) revisão. Assim, quase todas as vezes em que encontrei pequenas discrepâncias - sobretudo de acentuação - entre as duas versões do texto, dei preferência à segunda. 18.4.04
Spinoza - Cours Vincennes - 24/01/1978
Foi publicada hoje a tradução da aula de 24/01/1978, em que Deleuze explica o que é idéia e afeto em Spinoza. Trata-se de uma aula de grande interesse tanto para filósofos quanto para não-filósofos. Como todos sabem, traduzir é necessariamente trair. Os critérios que utilizei para fazer essa tradução, em ordem de importância, são: (1) Fidelidade ao sentido do discurso de Deleuze. (2) Clareza do texto. (3) Respeito às peculiaridades de um discurso oral proferido numa sala de aula. Jamais se poderá ressaltar com força suficiente as dificuldades envolvidas na tradução de um discurso oral que foi posteriormente transcrito. Houve pelo menos um caso em que eu fui obrigado a corrigir o próprio texto original. Os itálicos são meus: Une idée-notion ne concerne plus l'effet d'un autre corps sur le mien, c'est une idée qui concerne et qui a pour objet la convenance ou la disconvenance des rapports caractéristiques entre les deux corps. Si il y a une idée telle - on ne sait pas encore si il y en a, mais on peut toujours définir quelque chose quitte à conclure que ça ne peut pas exister -, c'est ce qu'on appellera une définition nominale. Je dirais que la définition nominale de la notion c'est... Como se vê, essa passagem é sobre a "idéia-noção" ou "noção", a "noção comum" de Spinoza. Ora, pontuada da maneira que está, essa passagem acaba induzindo o leitor a pensar que esse tipo de idéia (a noção comum), caso exista, é uma definição nominal, o que simplesmente não faz nenhum sentido. O que Deleuze está dizendo é que (1) não se sabe (ainda) se esse tipo de idéia existe, e que (2) antes mesmo de sabermos se ela existe ou não, podemos propor sua definição nominal. Como esse equívoco na pontuação do texto está presente no original em francês, todos os tradutores, sem exceção, acabaram perpetuando-o. Ora, Deleuze começou com uma oração condicional: "Se existe esse tipo de idéia...", mas logo em seguida fez uma rápida digressão sobre o que é uma definição nominal. Eu poderia ter mantido a frase como está, modificando apenas sua pontuação, mas não ficaria tão claro quanto poderia. Por isso optei por transformar a oração condicional numa interrogação: Uma idéia-noção já não diz respeito ao efeito de um outro corpo sobre o meu, é uma idéia que concerne e que tem por objeto a conveniência ou a inconveniência das relações características entre os dois corpos. Existe esse tipo de idéia? Não sabemos ainda se existe, mas sempre é possível definir alguma coisa, mesmo que seja para concluir em seguida que ela não pode existir: é o que se chama de definição nominal. Eu diria que a definição nominal de noção é... Assim, se por vezes é preciso trair a letra para não trair o espírito, há ocasiões na quais, em nome do espírito, é preciso trair até mesmo o "original" - sobretudo quando não se trata de um texto escrito e revisado pelo próprio autor, mas da transcrição de uma fala. Obviamente, minha tradução não é nem poderia ser considerada perfeita, ainda que eu tenha dedicado a ela um cuidado extremo. É muito provável que no futuro eu venha a encontrar melhores soluções para traduzir este ou aquele trecho, esta ou aquela palavra. No entanto, de modo geral, pode-se dizer que o resultado que obtive é mais do que satisfatório. Enfim, estas aulas revelam com muita clareza uma faceta talvez menos conhecida de Deleuze: a de (grande) "historiador da filosofia", e principalmente a de professor, preocupado antes de mais nada em facilitar a compreensão de conceitos e de problemas filosóficos vitais. Nada seria melhor para corrigir a (tola) impressão de que Deleuze é um pensador obscuro. Difícil, sim, mas jamais obscuro, e nesse sentido um autêntico continuador da tradição francesa. Aqueles que tiveram a oportunidade de assistir às aulas de Cláudio Ulpiano, introdutor do pensamento de Deleuze no Brasil e até hoje seu melhor intérprete, perceberão que se trata de uma mesma "escola", que sabe aliar uma extrema frieza - o rigor absoluto no trabalho do conceito - ao tórrido subterrâneo que diz respeito à nossa vida de todos os dias, aos nossos modos de vida, à nossa escravidão e à nossa liberdade. 8.2.04
Web Deleuze Brasil
Este blogue foi criado como um informativo sobre o trabalho de tradução dos cursos e conferências do filósofo francês Gilles Deleuze para o Português. Elas estarão disponíveis no sítio oficial webdeleuze, publicado sob a responsabilidade de Richard Pinhas. Por outro lado, a partir de 2005 eu irei produzir uma série de programas de TV que veicularão o conteúdo integral de algumas dessas aulas e conferências. Portanto, são duas iniciativas distintas porém complementares: a tradução dos textos de Gilles Deleuze para o Português e a posterior produção dos programas de TV. Também está nos meus planos o lançamento de arquivos de áudio digital (em formato OGG) com o áudio dos programas de TV. Assim, os telespectadores (e os internautas em geral) poderão se beneficiar do acesso gratuito aos textos veiculados na TV, que estarão disponíveis (em português) no sítio webdeleuze. Pessoas com deficiência visual terão acesso ao áudio dos programas de TV e também aos arquivos de áudio digital que serão futuramente distribuídos na Internet. As traduções serão devidamente registradas na Biblioteca Nacional e obviamente não poderão ser publicadas ou republicadas sem o meu consentimento. Eu me reservo o direito de, num momento posterior, reuni-las para publicação num livro ou numa série de livros. Por outro lado, elas poderão ser livremente copiadas e utilizadas para fins não-lucrativos, e é justamente para isso que estou publicando-as na Internet. Já os programas de TV, que serão produzidos no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (Unitevê/IACS/UFF) serão colocados sob domínio público e estarão disponíveis, sem ônus, para todos os interessados em fazer sua veiculação em escolas, universidades e em outras emissoras públicas ou privadas. A primeira série de traduções (e de programas) será dedicada às aulas de Deleuze sobre Spinoza. |